A cidade de 15 minutos e o morador de 15 boletos
- Dorely M. Calderón

- 20 de nov. de 2025
- 1 min de leitura

A cidade de 15 minutos prometia uma vida simples: morar perto do trabalho, do mercado, da escola, da praça, do café orgânico e da felicidade em escala humana. Tudo estaria ao alcance dos pés — exceto, naturalmente, o aluguel.
O morador, esse personagem heroico do urbanismo contemporâneo, agora pode caminhar até tudo aquilo que não consegue pagar. Em quinze minutos chega à padaria artesanal, ao coworking com plantas tropicais, ao empório de produtos locais e ao parque requalificado com mobiliário urbano desconfortável. Em trinta dias, chegam os boletos.
A utopia da proximidade virou uma coreografia imobiliária: aproxima-se o serviço, afasta-se o pobre. A cidade compacta, sustentável e caminhável descobriu rapidamente seu verdadeiro talento: valorizar o metro quadrado com a delicadeza de quem fala em inclusão enquanto aumenta o condomínio.
No fim, o problema não é a cidade de 15 minutos. É que ela foi vendida para quem vive a 15 boletos de distância dela.
Porto Alegre, 2025



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