A arte de esculpir o formato das nádegas na madeira
- Dorely M. Calderón

- 20 de out. de 2022
- 1 min de leitura
Atualizado: 9 de dez. de 2025

A antiga arte de esculpir nádegas na madeira — outrora praticada por carpinteiros sábios e humoristas involuntários — desapareceu silenciosamente, sem direito a museu, catálogo raisonné ou tese de mestrado.
Esses entalhes surgiam como a mais humana das ergonomias: o artesão observava o próprio corpo, meditava sobre suas curvas e entregava ao mundo uma cadeira que acolhia não só o peso, mas a dignidade do sentar. Com o advento do design digital e das cadeiras “paramétricas”, perdemos essa sabedoria milenar: trocamos a memória tátil de um traseiro bem acomodado por simulações em 3D que prometem conforto universal — e raramente entregam.
A verdade é que, ao abandonar essa escultura íntima, deixamos para trás não apenas uma técnica, mas uma filosofia: a ideia de que a madeira deve ceder ao corpo, e não o contrário. Hoje, sentamos em superfícies tão genéricas que parecem projetadas por quem nunca sentou. E talvez seja exatamente isso.
Porto Alegre, 2025



Comentários