O balcão de Julieta e o Airbnb
- Dorely M. Calderón

- 1 de nov. de 2021
- 1 min de leitura
Atualizado: 10 de dez. de 2025

O balcão de Julieta, em Verona — ou melhor, as infinitas versões turísticas inventadas para suprir a demanda por romance instantâneo — são a prova viva de que a arquitetura não precisa existir historicamente para ser lucrativa. Shakespeare nunca mencionou um balcão, mas isso não impediu a cidade de restaurar um, padronizar filas e transformá-lo no primeiro point de “experiência imersiva” antes mesmo de o termo existir. Décadas depois, o Airbnb apenas aperfeiçoou a lógica: se há um fragmento de pedra com potencial de selfie, alguém irá alugá-lo por noite e chamá-lo de “vivência autêntica”.
Ironia histórica: o amor impossível virou negócio fácil. Enquanto turistas disputam centímetros de um parapeito que nasceu de pura ficção, anfitriões oferecem “varandas julietescas” em apartamentos que não cabem duas pessoas brigando. A tragédia virou comodidade; o cenário, capital; e o romance, taxa de limpeza incluída. No fim das contas, Romeu e Julieta teriam se comunicado por WhatsApp, reservado um loft medieval “com vista para o drama” e a história teria terminado bem antes — provavelmente quando perceberam a taxa de serviço.
Porto Alegre



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