Um urbanismo moralizante
- Dorely M. Calderón

- 1 de jun. de 2022
- 1 min de leitura
Atualizado: 9 de dez. de 2025

No Jardim das Delícias, Bosch antecipa — com cinco séculos de vantagem — a arquitetura paramétrica, o urbanismo caótico e a obsessão contemporânea por experiências “instagramáveis”. Suas torres de cristal, frutas habitáveis e pavilhões orgânicos parecem saídos de um concurso internacional em que ninguém teve coragem de dizer “não faz sentido”, e o júri premiou exatamente por isso.
Historicamente, o tríptico funciona como um manual medieval de urbanismo moralizante: à esquerda, um condomínio fechado pré-Queda; ao centro, um resort hedonista onde a ergonomia é opcional; e à direita, um setor pós-apocalíptico que lembra o que acontece quando se terceiriza a manutenção por séculos. Ironia das ironias: Bosch, sem nunca ter ouvido falar em modernismo, já entendia que a arquitetura revela mais sobre seus habitantes do que sobre seus materiais — mesmo quando os habitantes cavalgam aves ou brincam com morangos gigantes.
No fim, o Jardim das Delícias é a primeira e talvez melhor crítica arquitetônica da história: uma cidade tão imaginativa que faz parecer que toda a utopia contemporânea sofre, no fundo, de falta de imaginação.
Porto Alegre



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